Murillo Mathias - Confissões (1):
O dia em que virei flamengo

Rondinelli, o "Deus da Raça", e a cabeçada que mudou minha vida.

 

Eu não herdei de meu falecido pai apenas o nome, os belos olhos castanhos e o bom caráter. As semelhanças entre o ‘Murilinho’ e o ‘Dr. Murillo’ abundam. É fato, meu pai encheu minha infância de bons exemplos. Funcionário público honesto (coisa rara) e competente (mais ainda), costumava dar um banho nos colegas. Quando uma de suas funções era dar pareceres sobre questões tributárias na Receita Federal, ele costumava dar 100, 120 por mês, enquanto os colegas ficavam na casa dos 10, 15. 

Mas se em uma coisa eu ignorei as opiniões de meu pai e passei a ter, digamos, ‘vida própria’, foi com o futebol. O velho era pó-de-arroz. E claro, queria que seu lindo rebento também torcesse para o time das Laranjeiras. Dr. Murillo foi bem-sucedido até o dia 03 de dezembro de 1978. Eu tinha 5 anos de idade, até esse dia, sempre que me perguntavam o meu time, respondia, tal qual um cão adestrado, para alegria de meu pai: “Fluminense”.

Pois bem: Foi naquela tarde de domingo, sentado sozinho - minhas mulheres e meus amigos que me desculpem, mas as maiores experiências que tive na vida aconteceram na solidão – na sala daquele apartamento da 202 Sul que tomei contato, ou melhor: Fui esbofeteado pelo fenômeno chamado Clube de Regatas do Flamengo.

Não seria por acaso, pois creio que há explicações para tudo. O que geralmente ocorre é que algumas explicações são tímidas demais para serem tomadas como verdade. Mas vamos aos fatos (e aproveito para explicar porque Murillo Mathias, paulistano convicto e dos bons, torce pelo rubro-negro da gávea): Minha geração foi criada pela TV. Em 1978, a Globo reinava no país sem muita concorrência. O futebol sempre foi audiência na certa. E como em Brasília nunca houve clube que prestasse, o jeito era alimentar a paixão pelo futebol pela TV mesmo. O Flamengo estava em sua fase áurea, com Zico, Cláudio Adão, Manguito, Carpegianni, Júnior, etc...

Nem é preciso dizer que aquele foi um dos mais emocionantes jogos de futebol da história. Se o Flamengo ganhasse, seria campeão dos dois turnos e a coisa terminaria ali. O Mengão massacrou o tempo inteiro. Mas nada de gol. O locutor da Globo (nem me lembro quem) dizia a todo momento. “Se o flamengo ganhar será campeão”. Foi aí, que lá pelos 25 minutos do segundo tempo, completamente tomado pelaemoção da partida, pensei: “Se o Flamengo fizer o gol, vou passar a torcer pelo Flamengo”. E a coisa foi até os 42 minutos do Segundo tempo, quando o deus da raça Rondinelli, foi até o terceiro andar para cabecear (foi um cruzamento ou um escanteio?) e selar a sorte daquele campeonato e me colocar dentro da nação rubro-negra.

O Dr. Murillo, claro, não ficou nem um pouco contente com a coisa, e passou a me chamar de “vira-casaca”. Mas, no fundo, ele era um homem de bem, e sabia respeitar a individualidade de cada um, coisa rara. Nasceu uma pequena rivalidade, bastante celebrada, que só não atingiu patamares mais elevados porque o Dr. Murillo morreu bem antes de poder ver o seu Fluminense ser rebaixado para a terceirona do Brasileirão. Acho que teria morrido de desgosto caso tivesse visto...
 

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