Alguns dos aforismos de "Humano, Demasiado Humano",  de Friedrich Nietzsche,
tradução de Paulo César de Souza, recém editado pela editora Companhia das Letras.

(OK, Sr Schwarcz, já fiz a sua propaganda, não me venha cobrar direitos autorais. Se o Sr. quiser que eu tire os aforismos abaixo do ar, clique aqui)

 149.

A lenta flecha da beleza. - A mais nobre espécie de beleza é aquela que não arrebata de vez, que não se vale de assaltos tempestuosos e embriagantes (uma beleza assim desperta facilmente o nojo), mas que lentamente se infiltra, que levamos conosco quase sem perceber e deparamos novamente num sonho, e que afinal, após ter longamente  ocupado um lugar modesto em nosso coração, se apodera completamente de nós, enchendo-nos os olhos de lágrimas e o coração de ânsias. - O que ansiamos ao ver a beleza? Ser belos: imaginamos que haveria muita felicidade ligada a isso. - Mas isto é um erro.

187.

A antítese. - A antítese é a porta estreita que o erro mais gosta de usar para se introduzir na verdade.

192.

O melhor autor. - O melhor autor será aquele que tem vergonha de se tornar escritor.

193.

Lei draconiana para os escritores. - Deveríamos considerar o escritor como um malfeitor que apenas em raríssimos casos merece a absolvição ou a graça: isto seria um remédio contra a proliferação dos livros.

 218.

A pedra é mais pedra do que antes. - Em geral, já não entendemos mais a arquitetura, pelo menos não do modo como entendemos a música. Distanciamo-nos do simbolismo das linhas e das figuras, assim como nos desabituamos dos efeitos sonoros da retórica, e não mais nos nutrimos dessa espécie de leite cultural materno já no primeiro instante de nossa vida. Numa construção grega ou cristã, originalmente tudo significava algo, em relação a uma ordem superior das coisas: essa atmosfera de inesgotável significação envolvia o edifício com um véu encantado. A beleza se incluía apenas de modo secundário no sistema, não prejudicando o sentimento básico do sublime-inquietante, do consagrado pela vizinhança divina e pela magia; no máximo , a beleza amenizava o horror - mas esse horror era em toda parte o pressuposto. - O que é para nós, hoje em dia, a beleza de uma construção? O mesmo que o belo rosto de uma mulher sem espírito: algo como uma máscara.

 362.

Meios de embrutecimento. - Na luta contra a estupidez, os homens mais justos e afáveis tornam-se enfim brutais. Com isso podem estar no caminho certo para a sua defesa; pois a fronte obtusa pede, como argumento de direito, o punho cerrado. Mas, tendo o caráter justo e afável, como disse, eles sofrem com tal meio de defesa, mais do que fazem sofrer.

 405.

Máscaras. - Há mulheres que, por mais que as pesquisemos, não têm interior, são puras máscaras. É digno de pena o homem que se envolve com estes seres quase espectrais, inevitavelmente insatisfatórios, mas precisamente eles são capazes de despertar da maneira mais intensa o desejo do homem: ele procura a sua alma - e continua procurando para sempre. 

 426.

O espírito livre e o casamento. - Viverão com mulheres os espíritos livres? Creio que em geral, como as aves proféticas da Antigüidade, sendo aqueles que hoje pensam verdadeiramente e dizem a verdade, eles preferirão voar sozinhos.

534.

Infortúnio - A distinção que há no infortúnio (como se fosse indício de superficialidade, despretensão e banalidade sentir-se feliz) é tão grande, que normalmente protestamos quando alguém diz: "Mas como você é feliz!".

557.

Suspeitos. - As pessoas que não podemos suportar procuramos tornar suspeitas. 

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