Murillo Mathias:
Você é terrivelmente apaixonado pela Laetitia Sadier ?
(Se não é, está por fora).
 

Um episódio foi marcante na vinda do Stereolab a São Paulo. Em determinado momento, a adorável Laetitia foi dançar com a galera. Quem estava discotecando era o Serginho... Embora ele não estivesse tocando nada de especial (Jorge Ben, Tim Maia, Roberto Carlos, Wilson Simonal...), a pista estava cheia... Aparentemente, todos só estavam lá dançando por causa da vocalista do Stereolab... Já vi aquela pista absolutamente às moscas uma dúzia de vezes quando o repertório era o mesmo. Fica a questão no ar: Será que precisamos sempre de um estrangeiro para que nos lembremos de que não somos um bando de barnabés? Que a nossa comida não é pior que a deles, que a nossa música não é pior que a deles, que nossas cidades e baladas não são de maneira alguma piores? Adorei quando o Serginho disse que os caras do Stereolab queriam já almoçar num dos botecos da Galeria do Rock, atacar uma daquelas bisteconas cheias de gordura e cebola em cima... Por que nós, os brasileiros, os partidários do samba, do futebol e da "felicidade" somos o povo mais cheio de frescuras do mundo? Ou estaria eu sendo injusto com o povo brasileiro? Seria essa frescura apenas atributo dessa nossa querida classe média, que tenta a todo custo ser sofisticada (e com isso, me refiro também a todo o bando de nouveau riches que assola o país)?

 

Você pode achar que eu estou louco. Mas não há nada mais sofisticado que Laetitia Sadier. Pois não há nada mais sofisticado (e eu, como tímido confesso só posso cultuar essa postura) do que chegar em qualquer lugar e sentir-se em casa: é o píncaro da sofisticação. Pois não satisfeita em se apresentar no show de quinta com uma camisa cor de creme, com bolinhas bordô e ainda por cima com desenhos de gatinhos nas costas, Madame Sadier ainda foi à Torre do Dr. Zero, conversou com todo mundo, entornou um monte de caipirinhas, fez trenzinho com um bando de barnabés na pista de dança e se divertiu às pampas. Eu só ficava olhando, enquanto babava baldes e mais baldes.

Mas é necessário ir mais além. Laetitia não representa somente a aceitação daquilo que duvidamos em aceitar como legítimo. Posso estar enganado, mas creio que ela teria a mesma naturalidade se fosse uma megastar, se estivesse rodeada de fotógrafos e o escambau. E acho que ela sabe que ser mega star não é o que importa. Acho que o Stereolab (e uma série de outras bandas, como o Air) estão demonstrando que nem tudo na vida é ser Madonna. Que é possível ser famoso, cultuado até e continuar sendo um ser humano normal, sendo artista, e não mero empregado de multinacional.

 

No fim, fica a esperança... Que a mulherada deixe de tentar impressionar os homens com truquezinhos baratos a cada instante e saibam ser naturais, graciosas, inesquecíveis e, conseqüentemente, necessárias, como a Laetitia, sem com isso assinarem uma promissória em branco para o diabo, sistema, status quo ou o raio que o parta, chamem como quiser. Como diria a letra de "The Free Design", que a própria musa desta coluna canta:

"When the higher spheres tell us to and not to
Everyone agrees demanding more veto
Our earthly design, can we be so detached ?
What crushes our desire not to be trapped?"


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