"Liberdade Absoluta?",  Krzysztof Kieslowski
 

Um belo dia, dois sujeitos chamados John Boorman e Donahue perguntaram pra um bando de diretores o que eles fariam caso pudessem filmar com liberdade absoluta (orçamento ilimitado e nenhuma obrigação de distribuir o filme). Segue a resposta de Kieslowski...

 

Eu não acredito em liberdade absoluta. Na prática, isso é impossível, filosoficamente inaceitável. Nós nos posicionamos de forma a conquistar a liberdade e toda hora nós percebemos que nós não podemos alcançá-la. E, olhando por esse lado, a meta não é tão importante quanto os meios de conquistá-la: é impossível - Graças a Deus! - alcançar essa meta. Então, é óbvio que eu esteja disposto a fazer concessões. E não apenas porque isso é útil. Em primeiro lugar, porque eu não sei as respostas, e ao fazer filmes, eu faço perguntas. Perguntas e dúvidas, falta de auto-confiança, curiosidade e o maravilhamento por tudo acontecer de uma maneira natural - tudo isso me coloca em uma posição de ouvinte e observador. Eu mudo meu roteiro constantemente - as cenas, os diálogos ou as situações - porque eu posso ver que as pesoas à minha volta tem idéias melhores, soluções mais inteligentes. Não importa que estas sejam idéias de outras pessoas. A partir do momento que eu as aceitiei e as escolhi, elas se tornaram minhas.

Como um diretor de cinema, eu sou realista. Eu uso o mundo dos acontecimentos e o mundo dos pensamentos , e eu os trato igualmente. Eu também sou realista na minha maneira de encarar o trabalho. Eu respeito o produtor, o dinheiro e, acima de tudo, meu espectador. Não porque eu tenha de fazer isso. Eu faço assim porque eu quero. Na minha opinião, a produção de um filme - não importa quão dispendiosa - tem a sua moralidade. E eu tento obedecer a essa moralidade, porque eu quero obedecer. Uma xícara de café pode custar 1 dólar e 50 centavos, pode custar 3 ou 5 dólares, mas quando ela custa 120 dólares, beber esse café é imoral. É assim na produção de filmes.

O filme que eu quero fazer é o filme que eu posso fazer. Não há outros. Eu não penso em outros filmes. Eu não tenho um milhão de espectadores esperando na entrada do cinema, mas eu preciso sentir que alguém precisa de mim para alguma coisa. E mesmo que eu faça filmes - como todos os meus colegas - para mim mesmo, eu procuro todo o tempo por alguém que me diga, como uma garota de quinze anos na FRança me disse: "Eu vi o seu A Dupla Vida de Veronique". Então eu quero ver isso mais vezes. Pela minha primeira vez na minha vida eu senti que existe algo como a "alma". Então, se eu não estivesse interessado na opinião dessa garota, não haveria motivo pra tirar a câmera da caixa.

 
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