Um trecho de "Paisagem Pintada Com Chá", de Milorad Pavic
Tradução de Aleksandar Jovanovic. Editado pela Companhia das Letras.
 

Ele sentiu que Vitatcha contava-lhe os dentes com a língua, que não se opunha ao fato de ela vir a descobri-los, e que ela estava disposta a largar o noivo, ali mesmo, no parque. Ela usava o lábio superioir salgado de terror; o inferior, um pouco amargo; e um coração que batia como se tivesse sido roubado. Sentiu na face que as pálpebras dela o arranhavam. Sentiu as ancas de Vitatcha sobre o abdômem. Saiu enfeitiçado debaixo dos portões do déspota Stefan e assim que o grupo se dissolveu aos pares, aqui mesmo, no Mali Kalemegdan, no parque, cheio da saliva de Vitatcha Milut, com o membro que ela havia endireitado, fertilizou sua própria esposa, Stepánida, nascida Djuráchevitch, casada Svilar, com tamanho vigor que, até hoje, não conseguiu descobrir a mãe do filho.

 

Pela manhã, quando descobriu que, depois daquela noite, jamais poderia esquecer Vitatcha Milut, já era tarde. Procurou-a. Encontrou-a na cama de um outro. Na mesma noite, ela mudou-se e, pela primeira vez, dormiu na casa do noivo.

Foi assim que ele ficou com a esposa para sempre. E agora o filho, Nikola Svilar, aos dezesseis anos, estava sentado diante do pai, com um cabelo parecido com uma penugem branca, e ele crescia como se, em vez de sopa, comesse a colheradas os dias e as noites do prato. E ele se perguntava, reiteradas vezes, se as feições do rapaz não emitiriam um sinal qualquer, capaz de confirmar sua dupla origem. Se os filhos recebessem o sobrenome da mãe - indagava-se -, que sobrenome seu filho deveria usar? De Stepánida Djuráchevitch, casada Svilar? Ou daquela "primeira"mãe, Vitatcha Milut? Até agora, no entanto, não se podia perceber absolutamente nada em Nikola que o pudesse ligar a Vitatcha Milut ou ao nome dela.

 

Ele continou a encontrar-se, de vez em quando, com Vitatcha Milut e o marido; observava como ela bebia, como se mordiscasse o copo. E nunca mais conseguiu descobrir as propensões dela. Uma vez somente, quando ficaram a sós, durante alguns minutos, ela alisou com saliva as sobrancelhas do filho dele, ainda muito pequeno, e disse:

 

- Existem mulheres que só amam os filhos; existem outras que só amam os maridos. O problema reside no fato de que a mulher percebe imediatamente aquele homem que a considera uma espécie de aparador de bigodes. Todas as mulheres deparam-se com esses homens, e todas as mulheres os evitam. É como aqueles lugares da terra em que os cães jamais haverão de ladrar. Desse modo, alguns são amados três vezes: primeiro, enquanto filhos; depois, como maridos; e, finalmente, como pais. Enquanto isso, os que não amaram suas mães não poderão amar nem as mulheres nem as filhas. Eles profanam e comem, simultaneamente, aos arrulhos. Há séculos, expressiva parcela da América perde a inocência com as negras, e parcela expressiva da Europa, no sudeste, com as ciganas. Que elas sejam abençoadas, porque não existe piedade maior do que oferecer um pouco de pão feminino a esses jovens desamados e desnutridos. É assim que vocês, que não são amados, nem serão amados, perdem a inocência. Permanecerão fiéis às mulheres que vocês não amam, e mesmo nem mesmo vocês gostam que elas durmam com vocês... É por isso que vocês ficarão procurando, eternamente, uma virgem...


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