O texto a seguir acompanha o disco Changeless, de Keith Jarrett. O disco contém apenas improvisações coletivas (aliás, fenomenais) gravadas ao vivo em concerto, pelo trio Jarrett-DeJohnette-Peacock. Ao contrário das longas e auto-indulgentes explanações que normalmente acompanham as notas dos discos de jazz, Keith Jarrett faz o diagnóstico de algumas das chagas que, a meu ver, tendem a desviar o homem de uma existência um pouco menos sofrida e mais "natural".
Pode-se dizer que o texto coloca em palavras tudo aquilo que me fez trocar o curso de Física pelo Cinema.
Os parágrafos que seguem trouxeram-me grande conforto desde o primeiro momento - comprei o disco em Abril de 1998. Tê-los redescoberto por volta de Outubro de 1999 foi, de certa forma, extremamente importante para a sedimentação de uma reviravolta que iria ocorrer alguns meses depois em minha vida pessoal..
Esta é um prova da paticipação no "centro". A perda de complexos de identidade é uma das últimas coisas em que o artista pensa quando quer ser "reconhecido". Na arte, parece que a personalidade é deus. Mas a personalidade é algo que nós escolhemos (para envolver a nossa natureza essencial) e a ela estamos ligados. O medo é que nós percamos o nosso caminho caso abandonemos nossa personalidade. Na verdade nós só perderíamos os apoios. Nós não somos livres até então. Mas não é facil enxergar através de nossas personalidades. Nós precisamos trabalhar nisso.
A música nesta gravação representa um paritcipação no processo, uma maneira de lembrarmo-nos de nós mesmos (e não de nossas personalidades) e, como tal, é também uma expressão daquilo que é essencial no núcleo da música, e daquilo que é perene.
Estas peças - que não foram escritas, ensaiadas, pensadas, esboçadas ou arranjadas - "surgiram" durante quatro concertos distintos. O processo é mais rápido e preciso do que o pensamento, e preconiza todos os nossos pensamentos. Sem a possibilidade de pensar, há menos chance de personalidade. Certas coisas são sabidas, outras devem ser pensadas. Algumas das coisas que nós sabemos nós pensamos que não sabemos porque pensamos nelas. Mas elas estão bem à nossa frente e se nós não a considerássemos como entidades separadas e coisas sobre as quais vale a pena pensar, nós as conheceríamos pelo o que elas realmente são. Sem a personalidade, a essência pode ser revelada. O sentimento de perder-se é muitas vezes o sentimemto de lembrar de si mesmo - você perde a personalidade e ganha o seu centro. Se dizemos "Nós somos a nossa personalidade", como será que esse "nós" encontra a música? Ela é mais profunda que nossas preferências, mas viva que nossas superfícies, e mais intensa que os nosso pensamentos. Elá é mais alegre do que os nossos jogos e mais carismática que nossos estilos. Ela está mais próxima de nós do aquilo que nós chamamos de nós mesmos. Por que a tememos, então? Na minha opinião é porque ela não é imaginária, e ela existe sem o nosso ego e ainda assim é responsável por ele.
Nossa sociedade escolheu claramente suas prioridades: superfícies. Não é de se espantar que os centros não despertem interesse algum. E mesmo que haja ou não interesse, a mentira da superfícies, dos estilos, do descartável, é uma mentira. Quer acreditemos ou não em profundidades, não pode haver superfícies sem elas. E mesmo que troquemos de roupas ou personalidades, nós não somos responsáveis por elas. Não quando estamos sentados sozinhos no quarto, acompanhados de nós mesmos, não quando nós desejamos participar e entender a criação.
*Embora a maior parte das pessoas que "acredita" nas coisas parece estar aprisionada (por sua crença) em um sistema que não permite nenhum "material novo" ou novas "realidades", elas funcionam a partir de um centro - sua crença.
No entanto, nós, que desistimos dos sistemas de crença ao questioná-los acertadamente, parecemos ter perdido não só o centro, mas também o conhecimento (através de um tipo de intuição ou fé ou confiança) da existência dos centros. Perdemos, então, a percepção das "totalidades". Nós podemos "pensar" e "falar" sobre totalidades, mas nós não as conhecemos. Em conseqüência, boa parte do nosso mundo foi destruída por nós mesmos, não por conta da crença em entidades distintas, mas pela falta do conhecimento intuitivo dos centros (ou Centro), que é a conseqüência da falta de fé.
Nossa sobrevivência também se tornou distinta (i.e. não dependente de qualquer outra vida na terra). Eu digo que as coisas ficaram assim, mesmo à luz da crescente preocupação com a fragilidade de nosso meio ambiente, porque essa preocupação nos foi imposta pela Ciência, e não pelo nosso conhecimento intuitivo. O que temos aqui é a crença na Ciência, que por si não é nada mais do que a crença de alguém em entidades distintas. A Ciência leva a culpa e o prêmio para que possamos sentar e esperar que as coisas "fiquem" bem.
A ciência é a visão de exatamente uma única perspectiva.Como será que os povos das tribos nativas de todos os países "sabiam" que tudo é interligado e frágil? Ao que parece, porque eles eram parte do mundo deles (não egoisticamente, de forma alguma), eles compartilhavam o conhecimento daquele mundo. Mas isso não era o bastante. Eles presumiam que tudo estava vivo, que tudo tinha consciência e portanto, estava conectado, enquanto nós consideramos tudo como morto e descartável (seria isto um fato ou uma crença científica?) até provem o contrário. E, quando for provado, vamos pedir à ciência para "consertar" o que estava "avariado" pela nossa falta de consciência. Estamos mais imersos na separação do que nunca, já que pensamos que se as superfícies estiverem bem, isso será o bastante.
Mas apenas o conhecimento dos centros (ou Centro) irá consertar o núcleo do nosso Mundo (ou mundos), ou - da mesma forma que os médicos tentam curar os sintomas - nós continuaremos a aplaudir as nossas próprias mortes. Continuaremos a polir nossas personalidades (nossas superfícies) até bem depois da "ameaça" da vida ter acabado. Se alguém dissesse que o aquecimento global é o centro incandescente da terra pedindo pra ser levado a sério, ele estaria errado?
"Sabemos porque sempre voltamos e retornamos a esse lugar e ficamos no topo,
no meio do círculo delimitado por pedras. Estamos procurando pelo segredo."¹"Como é estranho que "a-tom" em Grego signigique o mesmo que "individuum" em Latim. Os inventores dessas palavras não sabiam nada sobre fissão nuclear ou esquizofrenia."²
* O que é essa compulsão que temos de levar cada idéia que temos até as últimas conseqüências? Estaríamos nós confundindo uma compulsão normalmente destrutiva com um "desejo pela verdade"? (Ciência?) No mundo da música, essa fixação trouxe mais instrumentos desnecessários do que toda a história da música até a idade moderna. A música nunca os pediu (ou sequer precisou deles). Eles são o resultado de uma compulsão levada à loucura (casada com a necessidade de se ganhar dinheiro acima de todas as coisas). Parece que nós temos que fazer aquilo que segue. E quando o que segue se torna uma realidade, nós o consideramos válido porque ele existe. Será que somos tão orgulhosos de noso gênio para a invenção que nós esquecemos da dádiva humana do aouto-questionamento? A consciência inclui escolhas morais (e por que será que a palavra "moral" incomoda tanta gente? Talvez pelo mesmo motivo que a palavra "culpa" incomoda?). A Ciência inclui a ciência.
Vivemos em tempos pateticamente descontínuos, levando vidas pateticamente descontínuas, distanciados de cada atividade pela atividade anterior, à qual possivelmente não é relacionada e planejando a próxima simultaneamente. Em severo contraste, as atividades dos povos tibais são parte (e determinadas) pelo ambiente natural que os nutre. Suas atividades são um continuum de ações interligadas limitadas pelas suas preocupações com a vida de seu mundo. Estamos todos, no final das contas, limitados por nossas preocupações. O limite é a moralidade. Se ela vem de fora, nós estamos à mercê da metodologia científica (nesta sociedade).
Não conhecemos limites quando proclamamos a nossa liberdade de fazer o que queremos (de fazer a próxima coisa), e a falta de consciência (percepção) do que o nosso mundo realmente é (seu centro) permite à ciência tornar-se a nossa ocupação, uma vez que suas descobertas são discretas e sempre se referem ao mundo da forma como ele é definido pela ciência. A definição de "power tools" nas sociedades primitivas, comparadas à das sociedades modernas ilustra isso claramente.. podemos "provar" que a "power tool" deles é um objeto de poder? Não. Como resultado, nós podemos usá-lo tão bem quanto eles? Provavelmente não, sem um certo tipo de conhecimento, que pode ser chamado de crença. Quando você tem um continuum, você pode contemplar um centro, você pode ser moral.
Talvez seja injusto de minha parte usar esse espaço para defender aquilo que eu creio ser o "coração" perdido em nossas vidas, mas a propaganda contra essas visões permeiam a nossa vida de tal maneira que, sem um pouco de história "profunda", isto parece tornar-se a verdade. E uma vez que o que "parece" a verdade é usualmente tudo aquilo que temos normalmente (mídia, etc...), eu creio que escrever estas notas para um album que "representa" a verdade seja um convite para "ouví-lo por nós mesmos". Quando uma verdade é efêmera, nós temos que tomar cuidado com o processo que chega à essa verdade. O Perene é tudo que nós realmente possuímos.
"A única coisa que pode ser dita com certeza a respeito do futuro é que em algum ponto indiscernível do desenvolvimento tecnológico do passado, a nossa socidade se transformou em uma máquina que se vindica à medida que passa: algo que faz o que faz, mas até que passe a fazer algo diferente, ponto em que se torna uma máquina que faz esse algo novo."³
1: "Accident - A Day's News", de Christa Wolf. Farrar, Straus e Giroux, Nova Iorque, 1989.
2: "Accident - A Day's News", de Christa Wolf.
3: "Hence", de Brad Leithauser. Alfred A. Knopf, Inc. Nova Iorque, 1989.tradução: Murillo Mathias
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